Este sector destina-se a publicar documentos com interesse para a história da língua mirandesa.




DOUS TESTOS DE A. R. GONÇALVES VIANA SUBRE LA LHÉNGUA MIRANDESA

Nota de Leitura

Aperséntan-se a seguir dous testos de A. R. Gonçalves Viana, scritos na 1894 i publicados na Revista de Educação e Ensino i aqui rigorosamente trascritos cunsante l oureginal. Son ls dous únicos testos de l eilustre filólogo publicados nesta rebista subre la lhéngua mirandesa.

Ls testos, ambos a dous, son scritos por Gonçalves Viana a perpósito de la publicaçon de traduçones an mirandés de Bernardo Fernandes Monteiro: la traduçon de ls capítulos IX i X de l Evangelho Segundo São Lucas (Revista de Educação e Ensino, Vol. IX (1984): pp. 151-165, 182-184, 252-265, 500-507). Estas traduçones síguen l'ourtografie andicada por Gonçalves Viana que parece que tubo un papel mui amportante na sue redaçon final.

L purmeiro testo (I) ye ua pequeinha antroduçon a la lhéngua mirandesa, a la sue scrita i fonética. L segundo (II) ye ua nota de fondo de fuolha an que l outor faç ua correiçon amportante al que tenie scrito antes.

Lisboa, 15 de Maio de 2002.

AF

TEXTO I

«O EVANGELHO DE S. LUCAS TRADUZIDO EM LÍNGUA MIRANDESA

El Santo Ebangelho de Jesucristo segundo Sã Lucas

Vamos neste número encetar a publicação de textos em língua mirandesa, começando por alguns trechos do Evangelho de São Lucas, esmeradamente traduzidos pelo sr. Bernardo Fernandes Monteiro, natural da Povoa, concelho de Miranda do Douro, actualmente residente no Porto, e que conhece muito proficientemente a sua lingua materna, a qual continua a falar correntemente.

Esta fase románica, cuja primeira noticia científica foi dada pelo sr. J. Leite de Vasconcellos, é falada no concelho de Miranda, em dois dialectos principaes, o de Sendim e o de Duas Igrejas, pela população campesina e aldeã, quasi sempre cumulativamente com o português nas suas varias formas transmontanas, que do mirandês muito se acercam em bastantes das particularidades que as diferençam dos mais falares do reino; conserva porém aquele idioma da raia um cunho notávelmente asturiano, do que são exemplo o lh inicial por l inicial latino (lhoubar, português louvar, latim laudare), e a permanencia de l e n mediais, delantre, cheno, a par do português deante, chëo (chêo, cheio).

Não tem o mirandês ortografia propria sua, encostando-se á portuguesa os individuos que por curiosidade nele escrevem, com as variações e incongruencias que aquela infelizmente admite.

Seguimos neste texto um modo de escrever português, como convém, visto ser tal idioma falado em território português; prescindimos todavia nessa escrita dos superfluos ornatos etimológicos que, ainda mal, continúam a complicar as variadas ortografias da nossa língua. Na publicação dêste texto, que não tem carácter determinantemente científico, entendemos contudo desnecessario levar muito longe o rigor da representação gráfica. O texto, pois, deve ler-se como o indicam os símbolos usuais da ortografia portuguesa, pronunciados como nos dialectos transmontanos; isto é:

ou é ditongo (ôo) e difere portanto de ô.

x sôa como em xadrez.

ch vale por tx, próximamente.

ç e z proferem-se como no sul do reino, mas z final sõa como ç.

s inicial e ss medial profere-se quasi como x; s medial quasi como j. Êste último som mantém-se ao s quando há supressão da vogal que o precede em português, como em 'Sabel, por exemplo, em vez de Isabel.

Particularidades especiais da pronuncia do mirandês são as seguintes, que se devem ter em consideração:

ô, ê são quasi u (do inglês full), i (do inglês fill).

ó, fica entre ó português de córte, e ô de côrte.

As vogais nasais finais, ou antes de outras vogais, estão representadas por (~): ã, e, i, õ, u*; não há os ditongos nasais, ão, ãe, ~e, (em), õe, ue*; e antes de l da mesma sílaba conserva o som que tem em português

A. R. Gonçalves Viana.» in Revista de Educação e Ensino, Vol. IX (1894): pp. 151-152

* Nota de AF: Las bogales e, i, u aperséntan tamiem ~ no oureginal, nun stando eiqui scrito solo por deficuldades d'orde técnica.

TEXTO II (a perpósito de la palabra borõo )

«O som com que termina este vocábulo é propriamente um ditongo, formado pela vogal õ, seguida da vogal u *(cun ~. AF), mais fraca. Com quanto até agora tenha aqui erroneamente sido representada por õ simples esta terminação, a sua verdadeira escripta é õo, por analogia com ão, restabelecendo-se uma grafia antiga portuguesa, como em dõo, sõo, cujas correspondentes formas modernas são dom, som. Dêste modo serão de agora em deante escritas todas as formas mirandesas análogas, taes como "coraçõo, benciõo", etc., e nesta conformidade pedimos ao leitor que emende todos os anteriores vocabulos terminados em õ.

G.V.»

in Revista de Educação e Ensino, Vol. IX (1894): p. 500, nota 1.

* Nota de AF: cun ~)




Em 1942:

"Portugal manifesta a sua extraordinária unidade sob múltiplos aspectos, a qual se transmitiu ao Brasil, dando-se ao lado da fragmentação das antigas colónias espanhola, produto da difícil centralização forçada da mãe pátria, a admirável formação brasílica, que reflecte o sistema unitário português. Uma das características dessa unidade de Portugal é a língua, que se fala dum modo tão igual através de vastas extensões no mundo; porém, se para os profanos as variações pouco interessam, os filólogos encontrarão motivos para prescrutarem características dialectais.

É na província de Trás-os-Montes onde se encontram as diferenças mais importantes, pela existência de três dialectos: mirandês, riodonorês e guadramilês. Têm de comum estes dialectos: o serem fronteiriços, formados pelo isolamento das respectivas regiões, todos estudados inicialmente pelo glorioso sábio Leite de Vasconcelos, que os deu a conhecer à filologia românica, e o encontrarem-se em franca decadência, destinados a um rápido desaparecimento.

Investigando a existência do mirandês, Leite de Vasconcelos conquistou renome científico na filologia, com os dois volumes dos Estudos de Filologia Mirandesa (Lisboa 1900) e em outros escritos posteriores, em que o problema ficou minuciosamente conhecido, mas não esgotado, pois sobre eles já decorreram 40 anos em que os meios de investigação muito progrediram, como a gravação de discos, a observação directa, executada por grupos de filólogos superiormente orientados, e a existência de laboratórios de filologia experimental. No que diz respeito ao riodonorês e ao guadramilês, é também Leite de Vasconcelos que nos deixou o melhor, na Esquisse d’une Dialectologie Portugaise (Paris 1901), nas Lições de Filologia Portuguesa (2ª edição, Lisboa, 1926) e nos Opúsculos, II e IV volumes (Coimbra 1928 e 1929). Todavia, aqui Leite de Vasconcelos não pôde, por falta de tempo, desenvolver as suas investigações, que datam de alguns anos.

Falta pois um estudo actual destes três dialectos, antes que se dê a sua inexistência, a que estão condenados, provocada pelo desenvolvimento da instrução, que faz com que os próprios naturais tenham vergonha de falar em dialecto perante estranhos, como observei em Miranda, quando da minha estada nessa cidade em Agosto de 1933, e o seu não emprego literário, com excepoção, quanto ao mirandês, da interessante peça do ilustre dramaturgo Senhor Dr. Alfredo Cortez, intitulada Saias (Lisboa 1938).

Cada vez mais se vê a necessidade de se elaborar um Atlas Linguístico de Portugal, e é como elemento para esse repositório que se devem estudar os dialectos fronteiriços de Trás-os-Montes.

Conclusão – Pelas razões apresentadas, o Congresso Trasmontano solicita ao Ex.mo Senhor Ministro da Educação Nacional que ordene o imediato estudo científico dos dialectos mirandês, riodonorês e guadramilês, segundo os modernos métodos de investigação filológica, habilitando para esse fim com os meios necessários o Centro de Estudos Filológicos do Instituto para a Alta Cultura".*





"Os Dialectos Trasmontanos" pelo Dr. Manuel Busquets de Aguilar, in O Livro do Segundo Congresso Trasmontano, edição da Casa de Trás-os-Montes e Alto Douro, Lisboa, 1942, p. 118-119.

* Hoje, Centro de Linguística da Universidade de Lisboa.

 



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