A descoberta do mirandês


Marcos principais


Para os filólogos, o mirandês revela-se em 1882, quando José Leite de Vasconcelos publica uma série de pequenos artigos no jornal O Penafidelense, intitulados "O dialecto mirandez (Notas glottologicas)" que são depois compilados no opúsculo O dialecto mirandez (contribuição para o estudo da dialectologia romanica no dominio glottologico hispanho-lusitano), editado no Porto. É nessa altura que, pela primeira vez, se noticia a existência, em Portugal, de um idioma que não é português nem galego, podendo-se "estabelecer que o mirandês pertence ao domínio espanhol, como próximo do leonês", porém com muitas interferências do português. Em 1900-1901 surge a obra do mesmo autor, em dois volumes, intitulada Estudos de Philologia Mirandesa, em que é descrita uma boa parte da gramática desse idioma e tratado o problemas das suas origens e filiação.

Em 1906, o sábio espanhol Ramon Menéndez Pidal publica El dialecto leonés, em que as similitudes existentes entre a fala descrita por José Leite de Vasconcelos e as falas do território leonês o levam a afirmar uma antiga pertença do mirandês a um domínio linguístico muito mais vasto que o seu pequeno território. Com isso fica demonstrada de modo claro a hipótese de filiação leonesa que José Leite de Vasconcelos timidamente avançara.

Ao longo do século XX, outros sábios abordaram as suas origens e descreveram aspectos do seu funcionamento. De salientar, José Herculano de Carvalho e António Maria Mourinho. Graças aos seus estudos e comunicações, a curiosidade relativamente ao mirandês não desapareceu de todo. Porém ela ressurgiu de uma maneira extraordinária nos últimos anos do século XX, sobretudo após o reconhecimento do Mirandês como uma outra língua oficial de Portugal.

E as interrogações acerca do seu nascimento recomeçam, noutro plano. Hoje, algumas das questões que surgem com mais frequência em relação a este idioma, são: mas afinal, trata-se de um dialecto ou de uma língua? A ser dialecto, será um dialecto do leonês, do asturiano, do asturo-leonês ou do espanhol? Como é que de repente, este idioma que sempre foi considerado como um dialecto, passa a ser reconhecido como língua oficial? A ser língua, então porque é que o Castro-Laborense ou o Barranquenho não serão também línguas? Como evoluiu a atitude dos falantes perante a sua fala regional? Como é que uma língua de tradição oral e rural consegue fazer face às solicitações da modernidade?

Neste site, esperamos contribuir de algum modo para o esclarecimento destas e outras questões. Com a certeza de que muitas outras perguntas surgirão. A descoberta do Mirandês continua. Mas já não se trata de uma questão que interesse apenas estudiosos isolados. É uma questão que apaixona os falantes da língua, que os envolve e os chama.


M. Barros Ferreira


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